Home » Saúde Animal » Sarna Demodécica Canina
Saúde Animal

20/04/2006

Sarna Demodécica Canina | por Dr. Mário Santos

Dermatologia

INTRODUÇÃO:
A demodicose canina é uma doença de pele de carácter inflamatório, na qual um número maior que o normal de Demodex canis habitam a pele.

A proliferação inicial dos ácaros pode ser devido a desordens genéticas ou imunológicas. Apesar dos variados agentes empregues até agora como tratamento, a Demodicose generalizada crónica continua a ser uma doença dermatológica frustrante.

DESENVOLVIMENTO:

1 - O PARASITA: O ácaro, Demodex canis, faz parte da fauna normal da pele canina em muito pequeno número. Quando a doença se instala este povoam a pele aos milhares. Residem nos folículos pilosos e ocasionalmente nas glândulas sebáceas e apocrinas sudoríparas. O ciclo biológico estima-se que seja entre 20 a 35 dias e é realizado inteiramente no animal hospedeiro.

2 - TRANSMISSÃO: A transmissão dos ácaros nos canídeos ocorre por contacto directo durante os primeiros 2 ou 3 dias depois do nascimento, na fase inicial da amamentação. Os parasitas são inicialmente evidenciados no focinho dos cachorros, realçando a importância do contacto directo e da amamentação.

3 - PATOGÉNESE: A patogénese desta doença ainda não está completamente desvendada, embora haja uma forte evidência de predisposição hereditária na demodicose generalizada. É comum o aparecimento em certas raças puras tais como: Collie, Galgo Afegão, Pastor Alemão, Cocker Spaniel, Doberman Pincher, Dálmata, Boxer e Pointer.

A explicação para o desenvolvimento desta doença reside numa resposta celular imunológica anormal que permite a proliferação descontrolada dos ácaros na pele.

Foi considerada a hipótese da demodicose generalizada ser uma manifestação hereditária, específica de um defeito das células T para Demodex canis, sendo permitido ao ácaro multiplicar-se em elevado número, induzindo a produção de uma substância humoral que causará uma supressão generalizada de células T.

Há factores que predispõem ao desenvolvimento da demodicose, como sejam o cio, o parto e o parasitismo intestinal. Nestes casos, a aplicação de um simples tratamento tópico é o suficiente para a cura completa, depois de efectuada a castração, desparasitação e dieta adequada.

A demodicose generalizada é, em primeiro lugar, uma doença de animais jovens, mas poderá ocorrer espontaneamente em cães idosos.

Neste último caso deverá ser realizada uma história pregressa cuidadosa em relação à administração recente de drogas imunosupressoras, ou a presença de doenças imunosupressoras tais como neoplasias ou hiperadrenocorticismo.

4 - TIPOS DE DEMODICOSE: A doença manifesta-se sob duas formas clínicas:

a) Demodicose localizada: Caracteriza-se por uma ou duas áreas alopécicas delimitadas, pequenas, com graus variados de eritema, escamosas e hiperpigmentadas. Não são frequentes o prurido e a piodermite secundária. As lesões situam-se normalmente na cabeça, pescoço e membros anteriores, mas podem eventualmente aparecer noutra regiões do corpo do animal.

b) Demodicose generalizada: Surge, em princípio, em animais de raça pura com idade inferior a um ano e meio. Aproximadamente 10% das lesões de demodicose localizada podem, gradualmente ou rapidamente, dar origem a um quadro de demodicose generalizada.

Observa-se alopécia difusa, eritema, edema, seborreia, crostas e piodermite secundária. A piodermite pode apresentar-se moderada e superficial ou severa e profunda com furunculose e celulite. Prurido e linfadenopatia generalizada estão normalmente associados.

A doença pode ocorrer ainda sob a forma de otite externa, eritematosa e ceruminosa. Nos casos de pododermatite demodécica, esta afecta unicamente as patas.

5 - DIAGNÓSTICO: A raspagem profunda de pele e posterior observação ao microscópio é a melhor forma de diagnóstico. O pêlo deve ser cortado na área de raspagem, de seguida aperta-se gentilmente a pele entre o dedo indicador e o polegar para facilitar a saída dos ácaros dos folículos pilosos. A raspagem com lâmina de bisturi deve ser suficientemente profunda até que a zona raspada sangre.
Para confirmação do diagnóstico é necessário encontrar um número elevada de ácaros adultos ou formas imaturas assim como ovos. O focinho, (especialmente à volta dos lábios) e as patas são duas zonas favoritas dos ácaros e devem ser escolhidas como zonas iniciais de raspagem. Em situações especiais, uma biópsia de pele pode ser realizada para confirmação do diagnóstico.

Devemos referir que é primordial realizar raspagens de pele em todos os casos de piodermite canina, seborreias e doenças cutâneas das patas.

O hemograma dos cães afectados com demodicose generalizada demonstra que mais de 50% tem anemias não regenerativas, normocíticas ou normocrómicas, assim como níveis de Tiroxina sérica baixos (T4), coincidente com doenças cutâneas crónicas.

O cio, assim como a gestação podem provocar recidiva. É aconselhável realizar a ovarioectomia de todas as fêmeas que foram recuperadas após tratamento. Não devemos aconselhar a utilização de animais curados para reprodução.

Quando, num animal idoso, se desenvolve uma demodicose generalizada, uma doença interna ou neoplasias malignas poderão aparecer no prazo de um ano e o proprietário deverá ser prevenido dessa possibilidade.

http://www.hospvetporto.pt/artigos/detalhe/61